24º DIA - PARTE 1

EM VOLTA 

 
Cena do Filme


Cena do Filme


Cena do Filme

Deixei de comentar algumas fobias aqui, não por desinteresse, mas pelo fato delas estarem separadas para serem comentadas em grupo, como por exemplo, a inusitada fobia de ralo, a socializada fobia de polícia e a campestre fobia de borboletas. Mas de uma vez chamei a atenção da forma como Jean-Claude pesava sua mão quanto menor parecia o objeto de sua atenção. E comentar de que forma ele pediu para repetir o Fóbico de Palhaço por ter entrado em atrito com o primeiro que se apresentou para nós.

 

Mas voltei a escrever, tão de pronto, não somente para justificar o que comentei acima, mas para agradecer algumas pessoas (e não são poucas) que de uma forma ou de outra, me aturaram durante esses dias de reclusão e quase demência:

 

Aloysio, Anderson, Arnaldo, Beto, Camila, Célia, Cida, Clara, Claudião, Claudinha, Cris Alves, Daniel, Dedé, Diego, Dinho, Douglas, Gabriel, Gil, Girlan, Ivan, Jurandir, Joca, Lucas, Maira, Marcelo Caetano, Marcelo Hipólito, Marina, Marisa, Nadja, Naraia, Neto, Patrício, Pedro, Priscila, Sérgio, Sid, Taís.

 

As pessoas acima estavam num extra-campo tão próximo que quase dentro do FilmeFobia. Num extra-campo mais ambicioso agradeço a:

 

César (sempre), Domício, Moacir, Daniel, Cláudio, Luciana, Mariana, Patrícia.

 

Mesmo com todos os desgastes quero agradecer a Kiko Goifman, Cris Bierenbach, Lívio Tratemberg, Ravel Cabral e a Jean-Claude Bernardet por permitirem, nem sempre de bom grado, que eu me apropriasse de suas intimidades.

 

Agradeço aos moradores da rua Zacarias de Góes, pela compreensão e apoio.

 

Também agradeço a todos os Fóbicos que nos ajudaram e que agora vêem o projeto saltando para o abismo do esquecimento.

 

Para aqueles que se preocuparam comigo e me aconselharam a parar com o projeto, agradeço a atenção. Para os que estavam preocupados e excitados com o FilmeFobia, primeiro o meu espírito e depois meu ego agradecem os afagos espirituais.



Escrito por Hilton Lacerda às 22h28
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23º DIA - PARTE 1

QUELÓIDE

 

 

Foto: Cris Bierrenbach 

 

Algumas notícias nos tomam de surpresa. Outras, mesmo com toda bagagem de angústia, nos encontram alerta. Mas não menos tristes. E isso aconteceu segunda-feira, dia chuvoso e triste numa São Paulo cinzelada e sem muitos matizes. A despretensiosa beleza do dia só serviu para realçar o que se passou comigo e com o resto da equipe.

 

Esperávamos a chegada de Jean-Claude e Kiko. Estávamos ainda muito ressabiados de umas semanas estafantes e regadas a muitos conflitos. As animosidades estavam bem disfarçadas através de um tênue filtro de gentileza, naquele dia. Cris estava um pouco indiferente ao ambiente remoendo algum invento. Lívio conferia alguns sons. Chegou a me mostrar um ambiente muito interessante que havia feito do mar. Foi engraçado estar ali, naquela sala tão oprimente, e ouvindo as calmas ondas a se arrebentarem umas sobre as outras. Ravel tramava alguma amarração. Silencioso e solitário. Quando algum de nós o olhava, deixava um simpático sorriso avisar que não queria falar com ninguém.

 

Kiko foi quem trouxe a notícia: Jean-Claude Bernardet estava suspendendo o FilmeFobia. É isso! Não sei como explicar esse misto de alívio e tristeza. Logo depois (e isso acho que todos compartilharam naquele momento) fui tomado de uma raiva descontrolada. Como assim, suspender o filme e nem aparecer para nos falar isso? Afinal todos estavam afundados naquele projeto. Era apenas a vontade de Jean-Claude que importava? A única coisa que sei é que, a maneira de cada um, choramos.

 

Bem, o fato é que há três dias que tento voltar à minha vida, ao meu cotidiano. Aos meus probleminhas. Mas esse filme não me sai da cabeça. Assim como não me sai da cabeça tentar entender Jean-Claude. E me entender.

 

Mas tudo perdeu qualquer sentido. E eu perdi o sono. Um vasto sentimento de nulidade. Me sinto como tivesse perdido um grande amor e ainda, nas roupas usadas dias atrás, houvesse um leve cheiro de presença. Uma coisa incomoda e quase desesperadora.

 

Preciso deixar claro que o FilmeFobia, em nenhum momento (apesar das constantes brigas e conflitos) deixou de ser uma excitante experiência que, partindo de Jean-Claude Bernardet, vinha conceituar alguns estratagemas aninhados na linha reflexiva que ele tem da vida e do cinema. Os dois ali se encontrando. E o olhar sendo desvirtuado. Ou melhor: redirecionado para fora dos eixos estabelecidos.

 

Não sei precisar exatamente o motivo que o projeto parou. Provavelmente um acúmulo de pequenas e grandes questões. Não gostaria de entrar nestes aspectos agora. Mas uma coisa é certa: na minha concepção foi o complicado esquema de reflexão, somado a uma desgastante convivência, que nos catapultou para fora de nossas tolerâncias e inteligências, afundando o FilmeFobia dessa maneira.

 

O Blog vai continuar disponível. Não sei por quanto tempo e nem sei por que assim o quero. Talvez seja uma forma de deixar a porta aberta e não permitir que a cicatriz se concretize. Mas caso ela venha a se concretizar provavelmente terá, no lugar de um fino traço de lembrança, a monstruosa feição das quelóides visíveis.



Escrito por Hilton Lacerda às 22h11
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19º DIA - PARTE 1

GULLIVER

 

 

Uma paisagem bucólica. Mar e céu. Cinza, o céu. Mas não deixa de ser encantadora a paisagem. Para quem mora numa cidade como São Paulo, nunca é demais descer a serra e enfrentar a natureza loteada de suas praias. O que pode quebrar o equilíbrio desta cena? Que mácula?

 

Ravel carrega em seus braços um homem branco, muito grande. A cabeça raspada. Veste um macacão preto, muito justo a seu corpo, cheios de tiras de velcro. Um de seus braços e uma de suas pernas estão atados, deixando-o parcialmente imobilizado. Óculos-luneta estão afixados em seus olhos. É deixado no meio do bucólico quadro.

 

A Equipe está de acordo com as nuvens pesadas. Na última quinta-feira os ânimos foram acirrados por uma confusão entre nós. Lavagem de roupa num ambiente já estressado por nossa conduta, por nossos embates éticos, pela incomunicabilidade que foi se estabelecendo durante as filmagens. Pelas dúvidas de Jean-Claude.

 

Cris parece respirar aliviada na paisagem marinha. Nadadora, se afoita mar adentro e desperta a preocupação de curiosos pescadores locais. Lívio parece encantado em poder captar os sons que vêm do mar, em vez das pobres nuances que lhe foram oferecidas no filme. Ravel, apesar de continuar sua rotineira e fiel obediência, está claramente desinteressado pelo projeto. Estou interessado no que pensa Kiko no dia de hoje.

 

Jean-Claude fuma sem parar. Está sentido com todos, nem se dirigiu a mim direito. Falou pouco e foi muito direto. As brigas de quinta-feira realmente o afetaram? Clima tenso para uma experiência estúpida, que tem o céu como testemunha.

 

O homem que está ali no chão aguarda a chegada de sua fobia, que vem saltitante e alegre. Apenas um minúsculo ponto no horizonte. Uma criança? O presságio vai sendo configurado pela profunda agonia do Fóbico, atado a si mesmo e bastante incomodado com o avanço de seu medo. De suas frustrações...

 

Eu sinto uma ressaca moral imensurável. Uma dessas que não admitem ansiolíticos. Não há carinho que amacie. Não tem jeito. Cheguei ao ponto da quase agressão com Jean-Claude. Vomitei toda sorte de palavrões com ele e com os outros. O uísque, mais uma vez, operou essa interessante transformação em meu espírito. A boca não está seca. Apenas a alma se isola nesse deserto de aflições em que se transformou minha vida desde que esse projeto começou.

 

O Fóbico se vira de um lado para outro em sua lenta agonia. A criança, que estava despontando num horizonte próximo, se transforma num anão. Sim, um anão nu, apenas com fitas de velcro nos punhos, na cintura, nas pequenas pernas. Sua dança provoca irritação no Fóbico, que fica completamente fora de controle quando o liliputiano pula e salta sobre seu corpo. E aquele homem branco, alto, forte, se desdobra em soluços convulsivos, querendo atingir com o braço livre seu algoz (ou sua vítima?).

 

Passei o dia de ontem emergido num sentimento de dúvidas e receios. Onde foi que, aparentemente, perdemos contato com a realidade? Através de comentários do blog algumas pessoas me aconselham a abandonar esse projeto. Não, comecei, terminarei. Vai ver eu termino assim como esse Fóbico, que minutos depois, almoçando num humilde restaurante na beira da praia, reconheceu a vergonha que sentia por conta da sua fobia. Achei grandiosa sua sinceridade. Mas o anão não almoçou conosco. Voltou rapidamente para casa. Não podíamos ter os dois juntos. Choque nos interesses.

 

Antes da volta Jean-Claude se isolou do grupo. Ficou mirando o mar com seu binóculo. Raios! Não enxerga direito, então o que observa?

 

Voltamos calados da praia. Um silêncio voluntarioso. Kiko já havia voltado noutro carro, e assim nem tínhamos como filmar o making of daquela cena. Cris dormia (ou fingia) com a cabeça encostada no vidro. Lívio estava acompanhado de seu habitual isolamento. Ravel, com os braços cruzados sobre o peito, parecia esgotado. O Fóbico de Anões cantava a música que tocava no carro. Eu, cabeça baixa, tentava não ser contaminado por esse clima geral. Dedé, que conduzia o carro, tinha como co-piloto Jean-Claude. Olhava pela janela observando a noite que ele nem consegue mais distinguir. Estou curioso pelo dia de amanhã.

 

Ah, a música que tocava no carro era “Atiraste uma Pedra” de Lupicínio Rodrigues.



Escrito por Hilton Lacerda às 16h08
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17º DIA - PARTE 2

PREOCUPAÇÕES

 

Isso não é uma narrativa, mas uma notícia. Nosso Fóbico de Morte e de Flores, ao sair daqui, teve que ir para uma clínica, quando estava perto de sua casa. Uma crise de hipertensão. Nada grave. Foi o que nos informou Cris Alves, uma das produtoras que participam do projeto.



Escrito por Hilton Lacerda às 16h32
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17º DIA - PARTE 1

FOBIA DE MORTE (E FLORES)

 

Cena do filme

 

Já comentei que fobia não gosta de solidão. Ela vai agregando outras discretas amizades, quase sempre alcunhadas de manias. Um Fóbico de avião, não raro, inventa seu desprezo por terras distantes, supervalorizando seu quinhão natal em detrimento a outros lugares. Exemplo? Ariano Suassuna. Não gosta de avião.

 

Nelson Cavaquinho, em sua composição “Eu e as Flores” nos remete a uma imagem sensacional, onde os rebentos primaveris servem de passaporte para uma possível morte: “Quando eu passo perto das flores, quase que elas dizem assim, vai que amanhã enfeitaremos o teu fim”.  De certo, esse homem deve ter sido apavorado por essa composição. Mas a única coisa que ele afirmou em sua entrevista estava ligada ao olfato, segundo um especialista (nunca confie neles) o sentido que mais nos remete a uma primeira lembrança. No caso dele, descobriu depois, era o aroma de madeira já contaminada por cupins que despertou suas fobias. Isso, o cheiro de casa de cupins foi o início de uma angústia trágica, que colou em seus sentidos como uma paixão incurável.

 

O Fóbico de Flores e Morte, quando chegou aqui, já trazia uma expressão cadavérica.  Pensei que ele estava apreensivo com o que iria acontecer. Deixei de lado esta idéia, quando conversei com ele depois da entrevista. Aquela cor pardacenta de seu rosto já estava ali desde há muito. E, por incrível que pareça, ele era extrovertido. Simpático.

 

Agora cá estou eu, esperando o início da experiência, diante de uma estrutura de madeira, com roldanas dentadas em suas extremidades. Um rolo de papel acoplado a uma estrutura móvel ladeia essa maca sinistra. De onde me encontro, ao lado direito, posso ver um dossel de flores brancas. Inocentes e funestos cravos. A minha esquerda uma estrutura de madeira está solidariamente colocada.

 

Lívio entra na sala e posiciona microfones e segue para sua mesa. Neste momento entram Ravel e Neto (o ajudante para experiência de hoje). Será necessária muita força para fazer funcionar essa incrível máquina.  Cris já está na cena. Averigua cada detalhe dos mecanismos. Está atenta ao funcionamento dessa criação, que precisou de um assistente especial para ser construída. Essa invenção encheu Jean-Claude de ansiedades. Ele não queria apostar em sua funcionalidade; precisava de certeza. Ele está apreensivo e excitado

 

Vou tentar descrever rapidamente o que se passa. O Fóbico está sendo enrolado no dossel de flores. Cris monitora tudo e documenta com sua máquina. A expressão do Fóbico é assustadora. Lívio empolga o set com batidas de coração sampleadas. Os “tum-tuns” eletrônicos ajudam a coroar esse circo.

 

Ravel e Neto carregam o Fóbico até a estrutura de madeira. O prendem sobre a tábua principal desta traquitana e o imobilizam com cintos. Jean-Claude avança com sua câmera. Cris prende o rolo de papel em determinado ponto do dossel. Os dois assistentes tomam suas posições e liberam os grampos que impedem o movimento da tábua. Começam a girar o homem. O papel começa a enfaixá-lo, mumificando-o.

 

Depois de várias voltas, e com o Fóbico com uma das expressões mais aterrorizantes que fui capaz de perceber durante todas as experiências, foi retirado da máquina completamente embalado. O homem é colocado dentro da caixa ao lado esquerdo.

 

Um estetoscópio é estendido do peito do Fóbico até a mesa de Lívio que, com as batidas do acelerado coração, amplifica esta experiência quase metafísica.

 

Ravel e Neto saem da cena e voltam com sacos de terra, começando a cobrir o corpo trêmulo do Fóbico. Um tubo, injetado em sua boca e proteções para o nariz e os ouvidos (providencial bondade) pretendem dar segurança. Ele não pede socorro. Jean-Claude fica preocupado. Tiram-no desse ambicioso túmulo. Ele está em choque.

 

Tivemos muito trabalho para libertá-lo.

 

...

 

O Fóbico precisou de alguns cuidados e demorou um pouco para exibir sua simpática presença de espírito. Mas não é mais o homem extrovertido que aqui entrou. Preocupação? Jean-Claude está tão nervoso quanto eu. Cris e Lívio parecem sorumbáticos. Apenas Ravel, diante do pesado ar que paira, insiste em falar sobre cinema com Neto. E nem este está interessado.



Escrito por Hilton Lacerda às 13h57
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15º DIA - PARTE 1

FOBIA DE LESMA

 

Cena do Filme

 

Ela tem aproximadamente 40 anos. Uma vida estável, um casamento honesto, um filho. Família. Vê-se completa. Tem uma perceptível tensão cravada em sua testa. O olhar é vivaz (quando conseguimos vê-lo de frente). Sempre pende a cabeça para os lados, desviando os olhos para um possível horizonte, que se fantasia depois da parede que a cerca. Está aparentemente nervosa, e demora a responder as perguntas que são feitas por nosso making of. Antes de cada experiência todos são entrevistados.

 

Parecia à vontade aqui na casa. Transitou com desenvoltura, mas não deixou, nem um minuto, que a testa franzida descansasse em algum cômodo. E isso perdurou até o momento de começar a experiência.

 

Entrei antes de todos na sala, e por isso tenho, agora, tempo de fazer um pequeno preâmbulo sobre essa Fóbica. Achei muito curiosa a aproximação que ela fazia entre uma lesma e as mulheres, durante sua entrevista. Salto ornamental na piscina da psicanálise. E, tema recorrente, somou manias a sua fobia, como por exemplo, ter deixado de comer alface por conta de uma lesma que viu sobre uma folha dessa inocente verdura.

 

Paralisia, sudorese, vontade de morte, tremores... Esses os sentimentos dela quando diante do aquoso Molusco gastrópode pulmonado. Severa punição para alguém com a vida tão equilibrada.

 

A traquitana inventada por Cris é incrível, principalmente por sua simplicidade refinada, leveza e plasticidade incomum. Trata-se da junção de trilhos de trem de brinquedo, que partem de um único ponto e a certa altura trifurcam em caminhos opcionais. Dois deles seguem para as laterais, e um outro segue em linha reta. Tudo isso suspenso por fios muito finos. Sob essa estranha ferrovia, uma cadeira está colocada.

 

 

12h43min. Ravel e Cris conduzem a Fóbica para dentro da sala, lá ela é acomodada na cadeira, deixando sua cabeça a altura da linha reta da trifurcação comentada anteriormente. Seus olhos são “protegidos” por óculos de soldador transparentes. As amarrações de Ravel obrigam a Fóbica a ficar imóvel.  

 

Jean-Claude se aproxima. Parece generoso. Kiko está um pouco abatido. Por seus olhos notamos vestígios de um domingo de álcool e festa. Está um tanto imóvel para sua sempre tão ágil câmera.

 

Tudo é muito lento. Estamos tratando de um sentimento de apreensão. A lesma, colocada sobre os trilhos suspensos pela imaginação de Cris, começa sua lenta marcha em direção à trifurcação.

 

Em determinado momento Ravel retira os óculos da Fóbica. Lágrimas. Respiração difícil. Cansativo experimento.

 

O silêncio nos deixa ouvir o irritante vazio deste bairro, que só é quebrado por algum carro mais apressado, ou um avião ingênuo que nem imagina que, além dos tradicionais medos que carrega dentro de si, tem sob suas asas uma mulher paralisada por uma fobia tão singular.

 

A Fóbica neste momento não suporta mais a proximidade com o objeto de seu medo. Solta pequenos “ais”.

 

A melequenta criatura se aproxima de seu alvo. Levanta seu corpo diante da vítima. Parece estar zombando da pobre presa. Lesma naja, encantada pela respiração triste de uma mulher em sua mais profunda agonia, constrangida pelo malabarismo simbólico desta criatura.

 

Num dos comentários que recebi, uma blogueira propunha uma inversão do Fóbico em relação ao objeto da fobia. Acho que nesse experimento essa profecia se cumpriu. Bingo!



Escrito por Hilton Lacerda às 18h45
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14º DIA - PARTE 1

LUTA NA CLASSE

 

 

 

Nem sempre estou disposto a ser tolerante com as coisas que não concordo. No FilmeFobia estamos fazendo parte de um mesmo projeto, da mesma viagem. Isso me obriga a ser afirmativo com aquilo que desprezo? Acho desnecessário ter a visão do caolho. Não vou transformar parceria em cumplicidade.

 

A espetacularização do medo, por mais que esteja contagiada de ironias, não pode correr o risco das leituras transviadas. Pode ser danoso. É preciso o cuidado com as situações. É necessário pesar as possibilidades das opiniões de um mundo minado pela observação equivocada. Ou talvez o equívoco já esteja presente na colocação do assunto. Pode-se ler erradamente, assim como a gramática pode estar errada. E isso não tem nada com percentuais. Tem com acasos e ignorâncias.

 

Um negro, envolto em filme plástico, corre numa esteira de corrida. Uma mulher é despida e imobilizada por Ravel num desses equipamentos de flexão. Muito suado, o negro põe-se sobre a Fóbica. Seu corpo encharcado, alimentado por um fraudulento sistema de bombeamento, astutamente inventado por Cris, derrama gotas de falso suor sobre a mulher. Um espetacular óculos de molas liga a fóbica ao sudorento. Ela branca. A fobia é de esperma.  

 

Jean-Claude espia a cena com uma curiosidade quase doentia. Tudo aquilo me provoca náuseas. Não gosto da idéia de imprimir essa imagem: negro estuprador e branca vitimizada. Facílima arquitetura na dura engenharia do estereótipo.

 

Não acredito que isto tenha sido pensado assim por Jean-Claude. Havíamos imaginado essa experiência a partir do depoimento da Fóbica, e procuramos criar uma atmosfera possível diante da narrativa que ela nos sugeriu, onde tudo que aparentasse gotas dava-lhe uma desagradável sensação de sujeira.

 

Fechado o quebra-cabeça, pensei na posição do negro e na condição da vítima. Sai dali, não sem antes expor para Jean-Claude minha indignação com a falta de tato. Enfrentamento e indisposição. Abandonei o a filmagem. Fiquei orgulhoso de minha atitude, num primeiro momento. Agora estou envergonhado.

 

Reunião a noite e Jean-Claude, em vez de alimentar o desentendimento, concordou com meu ponto de vista, e acha que não devemos, de forma alguma, montar esse material. Disse que não sabia que viria um rapaz negro para esse experimento. Mas deixou claro que, apesar de concordar com minha observação, devíamos ter cuidado para não cair no policiamento errado das questões politicamente corretas.

 

Mais uma vez fui desarmado pelo discurso de Jean-Claude. Planejei minha retirada do projeto. Mas não o fiz. Pelo menos até agora. Mas a situação aqui nas filmagens, somada a um desgaste com minha paciência, é capaz de, a qualquer momento, me fazer sair correndo daqui.



Escrito por Hilton Lacerda às 15h16
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13º DIA - PARTE 1

FOBIA DE PENETRAÇÃO

 

 

Leituras fáceis povoam a cabeça das pessoas que se prestam aos nossos experimentos. Pensei a palavra armadilha. As coisas não correm exatamente como cria a imaginação do Fóbico. Nem com nossa própria imaginação as coisas caminham bem. E é aí que nos encontramos perdidos (a equipe e os Fóbicos). O fato é que não tenho a mínima idéia do que povoa a mente de Jean-Claude. Ele fala em metáfora. Mas é o cinema como metáfora ou a metáfora da dor? E para chegar onde?

 

Estamos num dos quartos da casa para realizar a fobia de Penetração. Todo um sistema de elevação está preparado pra içar a Fóbica de seus medos. Ela precisa se defender. E nós lhe damos uma chance.

 

Ravel a despe. São 11h46min, ela está muito tensa. E muito envergonhada diante de sua fragilizada condição. Ivan, um dos assistentes que aparecem quando as fobias têm maior grau de complexidade, ajuda Ravel a suspendê-la. Interessante como a nudez, que por um lado ritualiza alguns experimentos, fragiliza toda a situação.

 

Das cordas içadas, espelhos retrovisores fazem a alegria de Cris, que hoje está com enxaqueca. Não está para brincadeiras. Lívio continua tentando ser o palhaço de si mesmo. Deve ser o escudo para sua incomoda alegria.

 

Carrinhos automáticos, com “consolos” adaptados em suas capotas, são liberados na sala e se movimentam para cima e ao redor da Fóbica. Tudo muito barroco. Quando tudo estava flutuando no imaginário mundo do roteiro, tinha sua graça.

 

Kiko me atrapalha com sua câmera. Preciso perder algum tempo para falar mais da posição dele no filme. É meu amigo e compadre (já falei de Pedro Peruca), mas suas atitudes durante as filmagens me fazem desconhecer o homem da mesa de bar.

 

Com o medo tudo perde a ritualidade. O medo é uma máscara que “desveste” as pessoas. Talvez aí esteja a metáfora sugerida por Jean-Claude. Ali estava aquela mulher, travestida de agonias.

 

Ravel manipula os carros ensimesmados por protótipos de caralhos. E não será por sensualidade que esse filme será criticado.

 

E a música que um dos carrinhos libera torna ainda mais demente toda essa cena, maquinada por Jean-Claude em alguma ante-sala da sua loucura, e que recebeu a triste contribuição desse que vos escreve. As coisas não se estabelecem como verdades, e agora já mingua a vaidade. Apenas a vergonha parece sincera.

 

O tempo fere, assim como o grito dessa menina, que sabe deus, aceita essa brochante situação. Holofotes sobre ela. Câmera sobre ela. Ação sobre nós.

 

Lívio libera seu sarcástico sorriso enquanto a Fóbica está acuada e triste. Mais nua que sempre.

 

Nem sei o que escrever para essa demência e para essa demente. Não tenho pena dela. Só tenho pena dos solitários caralhos sobre esses improváveis carrinhos.



Escrito por Hilton Lacerda às 12h52
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12º DIA - PARTE 1

PARDO

 

Não me estenderei. Ainda estou sob forte impacto de mais um dia estressante, que foi ontem. Não consegui subir nada para o blog.

 

O Fóbico de Sangue comparece para mais uma sessão. Por que? 

 

Não tivemos a reunião prometida. Acho que Jean-Claude perdeu o controle sobre suas posições, se é que ele as tinha. Nós perdemos o eixo, a ética e muito de nossa pouca paciência. Humores diferentes para enfermarias distintas.

 

Cena do Filme

 

Cena do Filme

 

Foto: Cris Bierrenbach

 

Foto: Cris Bierrenbach



Escrito por Hilton Lacerda às 15h16
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10º DIA - PARTE 1

FOBIA DE BOTÕES

 

 

Algumas coisas se apresentam tão simples no cotidiano, que a mim parecem completamente desprovidas de maior horror. Mas, no mundo, as coisas não acontecem tão facilmente como imaginamos. Um cunhado meu tinha, quando criança, um absurdo medo do mar. Mas eu pergunto: não é o mar uma coisa assustadora quando invertemos a face romântica da moeda? Não tenho medo do mar, mas não me agrada a força daquela imensidão diante de minha solidão quando estou frente a ele acompanhado apenas de minha humilde coragem. Alguns pescadores já me disseram que isso é bobagem. Os perigos do mar são menos entusiásticos que algumas vias públicas de alguns (ou todos?) centros urbanos.

 

O Fóbico de Botões me pareceu um sujeito introspectivo, mas de olhar calmo e próximo. Em sua entrevista, quando indagado por que se colocava na situação de expor seu medo, respondeu que esse medo de botões só lhe causava incômodo. Na expectativa dele lhe valer algo mais, e servir de combustível para um filme, achava interessante expô-lo.

 

Em Cris baixou, na confecção deste experimento, um grande espírito criativo roubado do mundo da moda. O Fóbico foi colocado por Ravel dentro de um guarda-roupas e estava envolto por uma incrível vestimenta toda atada por botões. Cores e tamanhos enfeitavam sua triste figura. E ele preso àquela armadilha.

 

Estava com um dos joelhos machucado (um acidente que danificou seu menisco), o que facilitava sua imobilização.   O seu horror diante daquele traje é quem me revelou como pode uma pessoa sofrer angustiadamente diante de algo tão familiar como o inofensivo botão estrangulado por sua simplória casa.

 

Sempre acho que Jean-Claude pesa sua mão diante dessas experiências aparentemente menos agressivas. O fato é que, forçando a imaginação e a problematização, ele sempre chega a um resultado pouco generoso.

 

Depois do Fóbico (contínuo resistente ao conselho de Jean-Claude de denominá-los como pessoa – isso não diminui o sofrimento de ninguém) lutar de forma terrível para se livrar daquela vestimenta, ele foi bombardeado por um conjunto de catapultas de botões.

 

Em sua entrevista o Fóbico também comentou que não conhecia outros fóbicos como ele, pois o medo de algo tão insignificante provocava neles uma vergonha exagerada, e evitava-se a publicidade. A cena não foi divertida.

 

A vergonha que aquele homem sentia diante de seu medo veio fazer companhia a mim, quando assisti ao seu  calvário na ilha de edição. Foi a primeira vez que não acompanhei uma experiência durante as filmagens. A alergia dos pombos me deixou de molho durante todo o dia. Além disso, a noite anterior tinha sido povoada por uma misteriosa sombra de confusões e desencontros. Frutos de mais uma reunião com Jean-Claude e a equipe, que dou o direito de não comentá-la hoje. Preciso de instrumentos mais contundentes para digerir as coisas que se passaram ali. Hoje quero dormir em paz.



Escrito por Hilton Lacerda às 00h16
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9º DIA - PARTE 1

FOBIA DE PALHAÇOS

 

 

Existe a palavra “lúdica”. Sempre que alguém a pronuncia me arrepio. Lembro de outras palavras que me arrepiam, como “telúrica”. Palavras que não gosto. Pedagoga, por exemplo? Alguém gosta? Manuel Bandeira não gosta nada, nada de alhures, míude e quiçá. . Pois bem, tudo isso é para dizer que essa fobia (muito popular) é o mecanismo mais “lúdico” que usamos até o momento.  Mas medo e fobia de palhaço são tão assustadores para quem os têm que não merecem muitas brincadeiras.

 

O Fóbico de Palhaços, quando chegou na casa, se mostrou gentil e recatado, mas fez questão de que ele, em nenhum momento, tivesse contato físico com o títere da alegria.

 

Iniciada a filmagem. Hoje é o primeiro dia de trabalho com o horário de verão (em alguns estados do Brasil). Todos estão sonados. Pra mim, além do sono, espirros, olhos irritados e algumas escamações na pele. Herança dos pombos do dia anterior.

 

11h30min – O palhaço Xuxu entra em quadro. Logo depois dele vem o Fóbico levado por Ravel, que o posiciona em frente a um espelho, como num camarim. Uma dessas máquinas que misturam duas pessoas, através de um processo de fusão (uma em cada lado desse vidro-espelho).

 

O Fóbico de Palhaço tem seu pescoço imobilizado por um colar cervical. Depois todo seu corpo é preso na cadeira a partir das amarrações. O Fóbico nem parece muito ansioso. Jean-Claude olha impassível o espelho. Silêncio.

 

O palhaço Xuxu chega com a música de Lívio, que hoje está bastante sério. O fóbico começa a se fundir com a imagem do palhaço. Ele está bastante apreensivo. Respiração rápida.

 

Xuxu solta uma pavorosa gargalhada, e nosso Fóbico começa a perder o controle. Jean-Claude se diverte em suas pequenas manifestações de satisfação. É muito incômodo ver esse tipo de atitude nele.

 

Cris está muito afável. Lívio, começada a cena, parece se divertir um pouco. Mas está mais calmo que na semana passada. Começamos a ficar cansados do filme? Temos mais algumas semanas pela frente.

 

O Fóbico pede para sair. Grita a palavra para paralisar a cena. Silêncio. Jean-Claude sorri. Nosso Fóbico perde o controle e se desentende com Jean-Claude enquanto Ravel o desamarra.

 

Interessante como esse Fóbico reagiu e enfrentou Jean-Claude de forma tão incisiva. O chamou de perverso e sádico. Jean-Claude respondeu de forma muito autoritária, no meu modo de ver. Faltou paciência? Não me interessa. Ele deveria ser muito compreensível com as pessoas que vieram participar do projeto.

 

Para piorar o andamento do dia, Jean-Claude descobriu que seu monitor, que fica acoplado a sua cadeira de rodas, está com problemas técnicos. A visão dele está muito prejudicada e ele só consegue vislumbrar a cena a partir do monitor com ajuda de uma lupa.

 

Todos pararam para almoçar um tanto constrangidos. Kiko é o único que parece não se dar conta. Ou prefere assim. Hoje ele está mais engraçado que o quase apagado Lívio.



Escrito por Hilton Lacerda às 20h56
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8º DIA - PARTE 1

FOBIA DE POMBOS

 

 

Ontem, depois de filmar nosso Fóbico de Pombos, caí numa terrível crise alérgica. Logo, a descrição abaixo foi escrita ontem e só sobe hoje para o nosso blog. Depois disso concordo com uma piada recorrente de Lívio: precisamos ganhar um adicional pelas condições insalubres dessa casa.

 

...

 

Vamos realizar a Fobia de Pombos. A execução desta fobia depende de uma quantidade de mecanismos que funcionem ao mesmo tempo. Não que haja um grande grau alto de dificuldade, mas dependíamos de coisas que passavam pela coragem (do Fóbico e da nossa) para encarar o mau cheiro de um pombal, até a administração da fome descontrolada desses roedores alados. Este experimento é um tanto assustador, e deve pegar as pessoas de jeito.

 

Cris imaginou todo um processo, que colocaria o nosso Fóbico (pessoa?) numa situação muito incômoda. Chegado o dia e as coisas funcionam a contento. Ela lambe sua cria, quase orgulhosa desse experimento. Inicialmente essa fobia era para ser tratada em lugar público. Cris conseguiu isolar o povo das experiências. Sobre isso também discordo dela. Jean-Claude concorda mais com ela que comigo.

 

 

Nosso Fóbico foi preparado num ambiente externo da casa. Será conduzido até onde me encontro. Um galpão, cujo cheiro nauseabundo me dá ânsias de vômito.

 

Os pombos estão alucinados de fome. Dois dias que não comem. Estão confinados neste pombal improvisado, uma espécie de estúdio preparado para essa experiência. Olhar para esse lugar causa repulsa.

 

Estou próximo ao pombal. É difícil ter momentos de solidão nesta casa. Durante um momento gosto da sensação de isolamento, mas quando me dou conta do cheiro e do arrulhar monstruoso dos pombos, sinto um pouco de medo e fico ansioso para a chegada do Fóbico e da equipe. Fico curioso para ver a reação dele, entre aquelas infinitas criaturas.

 

Acho incrível a idéia do pombo como símbolo da paz e representação do Espírito Santo. Não sei se a banalidade deles tem com a idéia de onipresença divina, ou se os pombos antigamente não eram essa coisa repulsiva dos dias de hoje. Olho para aquelas criaturas e imagino se, por uma armadilha do destino, estivéssemos aprisionando o próprio Espírito Santo.

 

O Fóbico entra na sala em que me encontro. Imagine um animal indo ao abate. Roupa e chapéu bordados com pães. Está imobilizado em forma de cruz. O cabo de uma vassoura o imobiliza nessa posição, dando-lhe um aspecto de espantalho vivo. Beira o ridículo, mas o medo que percebemos em seu rosto acaba com qualquer possibilidade de sentimentos cômicos.

 

Guiando nosso Fóbico está Ravel. Parece alheio a dor do outro. Tenho estado mais próximo dele ultimamente. Me confessou, certo dia, que sua frieza é resultado de um pedido de Jean-Claude, que o queria direto, firme, forte e clínico. Sem emotividades.  Ele obedece. É um cão. Mas agora enxergo carinho em seu músculo oco (o coração). É bom quando conseguimos desvendar paixão nas pessoas que parecem duras. Ravel não é duro. Já Jean-Claude...

 

Lívio está bastante compenetrado neste experimento, pois ele tem que se deslocar de maneira muito ágil para ter os sons que a cena exige. Penso que ele se faz de engraçado para esconder a ansiedade de um perfeccionista. Ainda não percebi se ele rói as unhas.

 

Ravel aproxima nosso Fóbico do pombal, que tenta brecar sua entrada ali dentro. Resistência inútil diante da força e da disposição de Ravel. É incrível ver essas pessoas com necessidade de expor publicamente seus fantasmas. Não invejo esse tipo de gente.

 

A experiência é uma das mais violentas, no sentido “plástico”. E muito impressionante. Não tivesse pouca simpatia por pombos, a partir dali não os suportaria olhar mais.

 

Respiração ofegante, tremores, gritos, espasmos... O ambiente sufocante daquela sala, somada a atitude do fóbico, deixou uma pesada atmosfera no ar. O médico não pôde vir hoje. Foi difícil segurar aquele homem diante de seu descontrole. Fiquei péssimo. Respiro mal. Sem paciência para o mundo. A última imagem que lembro é de um sujeito amedrontador fumando um cigarro. Ele mete medo. Pessoas com medo metem medo.



Escrito por Hilton Lacerda às 12h08
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7º DIA - PARTE 1

FOBIA DE CELULARES

 

 

Começamos a rodar essa estranha fobia ás 10h30min. Minha cabeça estourando com os sons de celulares presos a uma máscara quase terrível  e quase cômica.

 

Fico encantado com a reação daquela mulher aos toques do celular. Uma coisa improvável, incrível. Sempre acho que essas fobias aparentemente tolas e corriqueiras são as que mais fazem uma pessoa sofrer. São quase piadas.

 

Acho que foi a coisa mais demente que presenciei em minha vida. Só vendo.

 

A única coisa que me deixou muito chateado foi o fato de Jean-Claude  ter, na frente de toda a equipe, falado que estava satisfazendo um capricho meu (detesto a palavra capricho) me colocando num lugar mais adequado na sala. para minha observação, apesar de atrapalhar a movimentação dele na cena. Lívio não ouviu. Cris sorriu. Eu não.

 

Jean-Claude reclamou de dispersão. Acha que estamos muito lentos para o sétimo dia de filmagem. Concordo com ele, e nem tenho como retrucar.



Escrito por Hilton Lacerda às 12h29
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6º DIA - PARTE 1

CÉU DE TEMPESTADE

 

Ontem esperamos em vão depois do almoço. O nosso Fóbico estava bastante tenso e a equipe estava desequilibrada. O tempo, exageradamente quente, destruiu minhas últimas forças. Cris e Lívio estavam muito distantes. Ravel continuava em sua habitual postura, pronto para suas ações.  Jean-Claude, que já estava muito irritado durante o dia, cancelou as filmagens e pediu uma reunião. Desde o início ele tinha proposto não participar das discussões da equipe.

 

A reunião me deixou, de certa forma, em maus lençóis. Eu estava levando muito à sério as premissas levantadas por Jean-Claude (desde o início do projeto) e acho que ele não está muito preocupado com elas. Por exemplo, com relação à representação da verdade e da verdade em si, ele não dá a mínima. Vários comentários chegaram sobre essa premissa ao blog, e nenhuma delas concordava com a veracidade da imagem dos fóbicos diante de suas fobias. Mas o mais importante, na concepção momentânea de Jean-Claude, é de um jogo que se estabelece entre a vontade do Fóbico e sua dor. Segundo ele, o Fóbico interessa mais que o filme. Falei que isso era terapia, não cinema. Não me deu ouvidos nem asas.

 

Uma coisa que descobri durante a reunião é uma manipulação estratégica de Jean-Claude em manter o conflito aceso. Mostra-se doce e depois mergulha nossa afetividade numa vala de incorreções. E nunca (em hipótese alguma) concorda conosco. Nisso ele não tem aliados.

 

Em outro comentário do blog, alguém fala sobre o sadismo da equipe. Neguei que existisse esse traço entre nós. Durante a reunião Cris comentou que sente uma ponta de sadismo naquilo que faz. Falei que a terapia, na verdade, era nossa. Lívio, escondido atrás de uma máscara de tiradas espirituosas e irritantes, me surpreende cada vez mais. Defendeu que suas participações no filme correspondem ao espírito proposto por Jean-Claude antes das filmagens. E arrematou sua opinião dizendo que Jean-Claude parece se apenar dos Fóbicos, que agora Jean-Claude sugere que chamemos de “pessoa”. Não respeitarei sua observação.

                          

O fato é que Jean-Claude, para a noite de um feriado ferrado como o de ontem, não contribuiu em nada para diminuir nossas ansiedades, dúvidas e embates. Mas hoje é outro dia, e tenho que me posicionar para Fóbica de ontem (“Fóbica de Ontem” parece música de banda paulista da década de oitenta).

 

Terminamos a reunião meio bêbados. Kiko estava filmando tudo para seu making of. Tenho algumas observações sobre ele, mas deixarei para outra ocasião. Desconfio de uma cumplicidade exagerada entre ele e Jean-Claude. Posso estar parecendo o paranóico de plantão. Tenho motivos.



Escrito por Hilton Lacerda às 14h01
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5º DIA - PARTE 1

FÓBICA DE AGULHAS

 

Cena do filme

 

A única coisa que consigo pensar, do alto de minha arrogante ressaca, é num copo de suco de fruta refrescante.  Mas no momento estou na sala onde vamos filmar uma Fóbica de Agulhas. O cenário é bem impressionante. A partir de um mecanismo móvel preso ao teto, repleto de agulhas, e de uma máscara de espelho, a Fóbica caminha numa sala forrada por cascas de ovos. Era meio-dia quando começamos a filmar. Uma experiência perturbadora. Mas não vou me alongar.

 

O som dos mecanismos com agulhas parece um respirador. Penso que vem dela, da Fóbica. Ontem, Jean-Claude falou de dor em nossa reunião. Compreendo melhor sua colocação. Existia uma falta de gramática para o entendimento dessas experiências. Ele sugeriu uma. Nem sei se a gramática está correta, mas já é uma pista.

 

Cris arrotou algumas ironias durante a experiência. Perguntou se eu estava me sentindo melhor na posição que foi escolhida para mim. Não tenho saco para responder.

 

Passei todo experimento afogado em minha ressaca matinal, a respirar a “dor” do outro. Nada confortável.

 

 

OBSERVAÇÃO MEDIANA

 

O feriado de hoje trouxe crianças a nossa casa. Muito esquisito o ambiente proto-tropical inconstante com os filhos de Lívio (Henrique) e Kiko (Pedro Peruca) brincando de Joãozinho e o Pé de Feijão.

 

Logo depois do almoço foram embora. Ficamos a espera de uma nova fobia.



Escrito por Hilton Lacerda às 18h31
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